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“EUA age como bandido por ter perdido liderança tecnológica do 5G”, diz cônsul da China

E este objetivo maior do Partido é resumido em uma frase que foi usada lá atrás e continua a ser usada hoje: servir o povo.

Publicada em 29/07/20 às 16:21h - 136 visualizações

por SUSANA LISCHINSKY


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Cônsul-geral da China, Li Yang, em comemoração do Ano Novo Chinês, em 2018  (Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo / 2018)

“Os Estados Unidos perderam o timing e a Huawei [detentora da tecnologia 5G] está com uma tecnologia de ponta. E ao perder esse timing e perder a liderança no setor de tecnologia, os Estados Unidos não reagiram de uma forma amigável. Ao correr atrás da perda dessa liderança estão reagindo como se fossem um bandido. E acho que isso fica claro aos olhos da população mundial”, afirmou o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang em entrevista coletiva, virtual concedida no dia 23.

Respondendo à acusação dos EUA e da Inglaterra de que a tecnologia chinesa seria usada para fins de espionagem, ele arguiu que “a tecnologia chinesa é a mais segura” e que, ao contrário, “a preocupação dos EUA é que, se todos países adotarem a tecnologia da Huawei, eles perderão a prerrogativa de acesso aos dados de todo o mundo, interrompendo a espionagem que fazem ao longo de vários anos”.

Li Yang destacou que, com o Brasil, a China trabalha no sentido inverso, buscando o aprofundamento da parceria no terreno tecnológico: “O desejo da parte chinesa é que consiga se aprofundar a parceria na área de tecnologia e comunicação e esperamos que da parte brasileira continue havendo essa atitude justa, positiva, sem discriminação em relação à China e suas empresas”. Para Li Yang o Brasil só tem a ganhar com esse processo e embarcar nas provocações norte-americanas não serve aos interesses dos países. Destaca que a parceria da China com os países da América Latina é baseada na “decisão conjunta, construção conjunta e benefícios conjuntos e acredito que se fará mais presente”.

Tal parceria, “só tem um objetivo que é apoiar o desenvolvimento do país que participa. Melhorar esse desenvolvimento para melhorar a qualidade de vida e trazer uma estabilidade econômica para o local”.

SUSANA LISCHINSKY

Seguem os principais trechos da coletiva:

Jornalista Arnaldo Cézar (ABI) – Boa tarde Sr. Cônsul Geral. A Huawei, que é uma empresa fabricante de equipamentos de telecomunicação e telefonia celular, vem fazendo testes na cidade de Búzios, aqui no norte fluminense, sobre a implantação da quinta geração de telefonia celular. Em função do que vem acontecendo nas últimas horas, especialmente o que aconteceu com a França, e ontem o que aconteceu nos Estados Unidos, eu queria saber do senhor qual é a expectativa das autoridades chinesas com relação ao mercado dos 5G no Brasil?

Li Yang – Respondendo à primeira pergunta, a parceria de tecnologia entre o Brasil e a China vem sendo, desde o início, muito boa; uma parceria muito amistosa. A nossa expectativa é que esse tipo de parceria continue no futuro, que esse tipo de relacionamento continue.

O desejo da parte chinesa é que consiga se aprofundar a parceria na área de tecnologia e comunicação e esperamos que da parte brasileira continue havendo essa atitude justa, positiva, sem discriminação em relação à China e suas empresas.

Como foi mencionado justamente por você, nos últimos dias temos visto uma pressão sobre as empresas chinesas, em especial a Huawei.  Mas, como todos nós sabemos, e os jornalistas também sabem, esse virou um assunto que foi politizado, não é mais meramente um assunto comercial, no âmbito de negócios. Essa área se tornou uma área politizada.

Ao longo da coletiva eu creio que devo retornar e aprofundar esse tema, mas como também foi mencionado pelo senhor, ocorreram alguns episódios aqui, no Brasil, mas estamos com a expectativa e a esperança que o mercado continue com o mesmo comportamento que sempre teve conosco.

Qual é a expectativa da parte chinesa? A expectativa de uma atitude justa e sem discriminação, e que permita a participação dos chineses nesse campo e nessa área.

– Filipe Barini, – O Globo – Minha pergunta é sobre a recente ação do governo chinês de bloquear a exportação de carne a partir de algumas empresas para a China. Existe uma preocupação da China com os controles sanitários brasileiros? Há possibilidade de outros setores verem seus produtos vetados pela China?

Li Yang – A parceria na agricultura é um dos grandes pilares da cooperação Brasil – China. Ela é grande e ainda tem um grande potencial de crescimento. Essa é uma parceria bastante sólida e o desejo chinês é continuar com o desenvolvimento dessa parceria. Torná-la cada vez maior e cada vez mais forte.

Alessandra Brites – Revista Intertelas – Minha pergunta é mais de teor geopolítico, sobre a Iniciativa Cinturão e Rota. A região estratégica desse projeto da China é a Eurásia. Nós, da América do Sul nos encontramos um pouco à parte deste projeto. O Senhor acha que existe a possibilidade da América do Sul integrar essa iniciativa?

Li Yang – A Iniciativa Cinturão e Rota já está com a participação de 140 países e aproximadamente 30 organismos internacionais. De acordo com as minhas informações, aproximadamente 20 países da América Latina já assinaram essa iniciativa. No presente momento, diversos projetos sob o guarda-chuva do Cinturão e Rota estão sendo implementados. Eu considero que ela não é uma iniciativa política, é uma iniciativa de desenvolvimento econômico. Por que eu digo que não é política?  Porque é uma parceria onde as partes negociam com é que vai ser, elas constroem junto, usufruem dos benefícios em conjunto, em acordo prévio. A Iniciativa Cinturão e Rota, desde o início, não é uma imposição do lado chinês, sempre foi uma escolha livre dos países querer ou não participar.

A Iniciativa Cinturão e Rota tampouco substitui programas de desenvolvimento econômico do país original já existentes. Os projetos em comum sob a Iniciativa são acordados entre as partes. Geralmente é o país participante que diz qual é o projeto em que tem interesse.

Eu acho que é exatamente por essas características que a participação foi um sucesso. Como disse anteriormente são 140 países e aproximadamente 30 órgãos internacionais.

Então, o princípio da Iniciativa é essa decisão conjunta, a construção conjunta e os benefícios conjuntos e acredito que se fará mais presente na América Latina. Ela só tem um objetivo que é apoiar o desenvolvimento do país que participa. Melhorar esse desenvolvimento para melhorar a qualidade de vida e trazer uma estabilidade econômica para o local.

Susana Lischinsky – Hora do Povo – Voltando à questão da empresa Huawei. Qual é sua opinião sobre a pressão que os Estados Unidos exercem sobre o Brasil e a Inglaterra em relação às parcerias para a adoção da tecnologia 5G e as acusações de que a Huawei poderia ser usada pela China para fins de espionagem?

Li Yang – Essa é uma pergunta muito interessante. Vamos começar falando que essa pressão que os Estados Unidos fazem conjuntamente com a Inglaterra em relação à tecnologia 5G já saiu do âmbito técnico, sobre se a tecnologia da China não é boa. Já saiu desse âmbito. Eu gostaria de aproveitar a ocasião e destacar alguns pontos. A primeira afirmação que eu faço é que a tecnologia 5G da Huawei já é inconteste, é a melhor que se tem no mundo neste momento. Não há contestação sobre a sua qualidade tecnológica. Então, reafirmo aqui que a tecnologia da Huawei é a tecnologia mais avançada. Existem diversos artigos falando sobre esse tema. Está cada vez mais se tirando a sombra sobre a qualidade dessa tecnologia. E exatamente porque está se retirando a dúvida sobre a confiabilidade da tecnologia 5G chinesa é que se começou a atacar em outra frente.

O segundo ponto que eu destaco aqui é que a tecnologia da Huawei é a mais segura existente no mundo. Com um trabalho de base feito de forma rigorosa e sólida podemos hoje afirmar que é a rede mais segura.

Na aplicação das tecnologias da Huawei, a empresa sempre assina um acordo de segurança com o cliente, essa parte de segurança é aberta com os clientes. Isso as empresas norte-americanas não fazem. Não o fazem porque eles usam a tecnologia para espionagem. E é por essa razão que os EUA hoje atacam a tecnologia da Huawei.

Das principais razões eu destaco: Por que os Estados Unidos atacam a Huawei? Porque já está comprovado que é a tecnologia mais avançada. Os Estados Unidos perderam o timing e a Huawei está com uma tecnologia de ponta. E ao perder esse timing e perder a liderança no setor de tecnologia, os Estados Unidos não reagiram de uma forma amigável. Ao correr atrás da perda dessa liderança estão reagindo como se fossem um bandido. E acho que isso fica claro aos olhos da população mundial.

O outro ponto que eu gostaria de destacar é que justamente pela tecnologia da Huawei ser a mais segura que isso causa medo aos EUA. A preocupação dos Estados Unidos é que se todos esses países resolvem adotar a tecnologia da Huawei, que é segura, eles perdem a prerrogativa de ter acesso aos dados do mundo todo e de, assim, continuar fazendo a espionagem que vêm fazendo há anos. Mas essa é uma marcha, uma evolução inexorável. Agora não tem mais como barrar a entrada ou a aplicação da tecnologia da Huawei.

Marcos de Oliveira –  Monitor mercantil – Dada a realidade na parceria entre Brasil e China, aliás, em notório destaque no mundo, vide BRICS, e diante do imenso potencial na futura Geopolítica de produção de alimentos, mesmo com a atual dimensão tecnológica do Agronegócio, o que o povo brasileiro deve e pode esperar do governo chinês em função do crescimento na Balança Comercial de nossos países? Afinal, ainda estamos muito aquém das reais possibilidades de negócios, em volumes e correspondentes valores, portanto, o que pode e deve ser feito para o crescimento necessário nessas relações comerciais?

Li Yang – O Brasil e a China são membros dos BRICS e durante 40 anos sempre tiveram uma relação extremamente amistosa. E justamente por isso a gente consegue colher os frutos. Os frutos que nós vemos dessa relação são um grande comércio e investimento entre os dois países. Neste ano em que a pandemia do coronavírus se alastrou pelo mundo todo, a economia se retraiu, o comércio retraiu; o que eu posso colocar como exemplo é que curiosamente o comércio entre Brasil e a China não se retraiu.

O que nós vemos desde o início da pandemia? O vírus tem feito um grande estrago em muitos países, quase a totalidade deles enfrentam dificuldade econômica, mas apesar dessa dificuldade econômica o comércio bilateral Brasil/China não diminuiu, continua no mesmo patamar. Eu poderia dizer aqui que esse é um ponto muito importante para a economia do Brasil no ano 2020.

A intenção da parte chinesa, seja ela de parte do governo ou do empresariado, é continuar nesse ritmo de desenvolvimento alto, de parceria em alto nível, construir essa parceria estratégica que existe entre o Brasil e a China e ajudar os países a atravessar esse momento difícil da economia com a pandemia.

Beatriz Narita – Portal Disparada – Neste ano, por conta do coronavírus, o FMI previu um cenário de recessão econômica mundial e o premier chinês Li Keqiang anunciou em maio que a China não anunciaria uma meta para o PIB de 2020. A despeito da crise, a China é uma das poucas economias que não terá o seu PIB negativo. Recentemente, o Departamento Nacional de Estatística anunciou que o PIB no 2º trimestre deste ano cresceu 3,2%, na contramão do mundo. Qual é o papel da China para a recuperação da economia mundial depois da crise e se é viável imaginar que a China terá um papel semelhante ao que teve em 2008, colaborando para a recuperação dos países em desenvolvimento?

Li Yang – Essa pergunta é muito boa. A dificuldade econômica em decorrência da pandemia é de todos os países. A China não é uma exceção. O primeiro trimestre não foi uma exceção, mas no segundo trimestre nós já conseguimos apresentar um crescimento de 3,2% e diversos economistas, sejam eles chineses ou estrangeiros, têm razões para acreditar e fizeram avaliações de que o PIB chinês do ano 2020 ficará no terreno positivo.

Podemos dizer que a retomada econômica da China foi realizada conforme o planejamento.

Diversas instituições internacionais, após observar o crescimento do PIB chinês já no segundo semestre, estão muito otimistas.

Eu particularmente acho que quando chegarmos ao final do ano o resultado do PIB chinês será uma grata surpresa para todos.

Existe agora uma pergunta. Qual é o papel que a China pode ter no mundo pós-pandemia? Na verdade, é uma pergunta fácil de responder. A China se recuperando, em primeiro lugar traz confiança para a economia mundial, sendo a primeira a se recuperar traz confiança mundial. Não só confiança, ela traz essa energia, essa força para puxar a economia.

Vamos começar pela primeira palavra: confiança. A China tendo sua economia crescendo traz confiança. O que é mais necessário neste momento é a retomada da confiança. Qual o recado que a China passa quando mostra já uma recuperação econômica no 2º semestre? É possível enfrentar essa grave crise sanitária e ter uma retomada econômica rápida se você fizer o dever certo.

A mensagem que a China passa é: pode se vencer o vírus e pode se retomar a economia. A China conseguiu administrar isso muito bem, tanto o combate à epidemia quanto a retomada econômica. Então, qual o estágio da China neste momento? Estamos com a economia controlada, estamos no caminho de recuperação econômica a passos sólidos e estáveis. 

Qual a mensagem que a China pode passar para o mundo? É a mensagem do exemplo. Outros países podem olhar para a China e pensar: ‘se a China conseguiu, por que eu não poderia conseguir’? Essa é a minha explicação para a palavra confiança.

Agora vamos falar de ‘puxar’ as outras economias, a oportunidade. Em relação às oportunidades econômicas, de negócios, é que uma vez controlada a epidemia, o governo chinês fez um planejamento dessa retomada, e esse planejamento abrange tanto o mercado interno quanto o mercado internacional.

Para o mercado interno, a China continua de portas abertas, importando produtos de nossos parceiros. Nós estamos construindo uma política extremamente liberal de atração de parceiros internacionais para o mercado interno, doméstico, chinês.

No âmbito internacional, a Iniciativa do Cinturão e Rota continua se desenvolvendo durante esse período e traz um impacto positivo para a economia desses países. Os projetos continuando não geram desemprego, aceleram a velocidade da retomada econômica.

Sobre a palavra ‘motor’, sobre o motor que puxa a economia. Eu posso dizer que há o planejamento interno da China, que está aberto à cooperação com economias fora da China e, ao mesmo tempo, os projetos internacionais da Iniciativa Cinturão e Rota que não pararam durante a pandemia.

Vou exemplificar o que estou falando. Os investidores brasileiros, que já estão aplicando na China, vão perceber como ficou mais prático, como diminuiu o trabalho administrativo de burocracia nesse curto período da pandemia. O ambiente de negócios na China mudou nesses poucos meses. O tratamento dispensado a empresários estrangeiros, inclusive brasileiros, é igual ao dos empresários locais, chineses.

O Brasil e a China, além de serem membros dos BRICS, têm uma parceria estratégica. Desde o início da relação diplomática Brasil/China sempre houve uma relação harmoniosa e amistosa entre os dois países. Em 2019, os líderes dos dois países fizeram visitas recíprocas. No mês de março, quando já havia eclodido a pandemia do coronavírus, os líderes dos dois países também se comunicaram por telefone e trocaram opiniões sobre cooperação no combate à pandemia. Podemos dizer que a China está tratando esse assunto do alto de uma visão estratégica. A parte chinesa continuará com total respeito, carinho e dedicação na construção dessa parceria, nesse relacionamento bilateral.

Nesses tempos especiais de crise sanitária estamos nos esforçando na cooperação do combate ao Covid-19. De acordo com as informações que tenho, desde o dia 6 de maio até o dia 19 de julho, foram 39 aeronaves fretadas que saíram da China e chegaram ao Brasil com material chinês. São mais de 1.200 toneladas de material para combate à Covid-19. Pelas informações que temos foram aproximadamente 240 milhões de máscaras cirúrgicas e mais outros equipamentos. Segundo palavras do ministro de Infraestrutura, Tarcísio Freitas, esse material foi amplamente utilizado na linha de frente do combate à Covid-19 no Brasil, poupando muitas vidas.

Susana Lischinsky – Hora do Povo – A China anunciou a entrada em operação de seu sistema Beidou, (sistema de posicionamento global e geolocalização da China, alternativa ao norte-americano GPS). Em que pé está esta tecnologia que conta agora com todos os 35 satélites do projeto em órbita, com o último deles lançado no dia 23?

Li Yang – O sistema Beidou é o primeiro sistema de infraestrutura da China voltado para o serviço público internacional. Na construção deste projeto, o conceito que sempre nos norteou foi: “o Beidou é o Beidou da China, é o Beidou do mundo, é o Beidou de todos”. Não é um sistema que só serve à China, mas ao mundo inteiro. Faz parte da nossa perspectiva que todos possam utilizá-lo. Nesse momento, metade dos países do mundo já utilizam o sistema Beidou. A China trabalha para ter mais acordos para promover a ampliação do uso do Beidou, para que este sistema possa impulsionar o desenvolvimento econômico de outros países e possa melhorar a qualidade de vida da população.

Alessandra Brites – Intertelas – Eu gostaria de falar um pouquinho sobre o grupo BRICS, que o senhor já mencionou em algumas das suas respostas. Alguns think thanks da Europa e dos EUA têm uma certa descrença, uma certa visão negativa sobre o grupo BRICS, especialmente nestes países de grande influência política no mundo. Há também dúvidas sobre a relação entre os BRICS, na relação entre a China e Índia, que alguns comentam ser sempre problemática, e com o Brasil atualmente. Apesar destas dificuldades, como o senhor acha que os BRICS podem seguir cooperando?

Li Yang – Os BRICS tratarem as dificuldades que surgem é uma coisa natural. Não existe nenhuma organização internacional, desde a sua criação até o seu florescimento, que não tenha encontrado dificuldades. Eu particularmente acredito que esta pandemia do Covid-19 está aproximando os países do BRICS e eu explicaria isso por dois aspectos: um, eu vejo que a parceria e o diálogo entre os países do BRICS vão se aprofundar em diversas áreas. Se vê muito os BRICS como uma plataforma econômica para o desenvolvimento de negócios, mas existe uma série de áreas que não são tratadas.

Eu vejo que grandes temas são negligenciados nos BRICS a exemplo de temas políticos, sociais, governança, política públicas, estas coisas não são muito tratadas e há uma oportunidade de ampliação de debate nestas áreas. Eu vejo esta caminhada dos BRICS como um caminho de aprendizado. Pelo aspecto internacional, eu enxergo o mecanismo dos BRICS como uma defesa do multilateralismo. Eu vejo os BRICS como um espaço para defesa e construção deste mecanismo de multilateralidade internacional. Quando observamos os países dos BRICS, percebemos que são grandes economias, e para continuar em um caminhar saudável é preciso defender o multilateralismo.

Se não tivermos este mecanismo multilateral e todos começarem a optar pelo protecionismo, imagina as graves consequências que teremos em breve. Por exemplo, vamos imaginar o Brasil. O Brasil é um grande exportador, imagina se todos os países, de repente, resolvessem ser extremamente protecionistas, qual o impacto que traria para todos? Então, nesta plataforma defendemos o multilateralismo e a abertura econômica, e não apenas para os cinco países dos BRICS, mas muitos outros. Então, eu avalio que há muito trabalho e projetos em comum que podem ser feitos nesta plataforma dos BRICS.

Beatriz Narita – Portal Disparada  – Os impasses diplomáticos entre Brasil e China em razão de representantes do governo muito próximos ao governo Bolsonaro, vendo a atual conjuntura e o alinhamento de Bolsonaro com Donald Trump, como o senhor vê o futuro das relações comerciais com o Brasil?

Li Yang – Já foi respondido na pergunta anterior. Eu acho que se os dois países olharem para o relacionamento de um nível mais alto e com a perspectiva de longo prazo e o desejo de caminhar juntos, teremos uma relação bilateral sólida e saudável.

CNN Brasil – A China é o principal destino da produção de carne brasileira e da soja. O Brasil hoje enfrenta altos índices de desflorestamento da Amazônia. Como a China pode continuar sendo o principal destino das exportações brasileiras e ser engajada na questão do meio ambiente?

Li Yang – Algum tempo atrás, a ministra de Agricultura do Brasil, Teresa Cristina, respondeu uma pergunta. Ela disse que o Brasil não precisa queimar mais a floresta amazônica para produzir mais alimentos. Algumas vozes que falam sobre este tema, na verdade, são a concorrência do Brasil. Eu acho que poderíamos usar esta frase para reflexão.

TV Comunitária do Rio de Janeiro – Moysés Correa – Eu queria perguntar, levando em conta a sua afirmação de que se a China pode enfrentar o vírus, outros países também podem. Qual a fórmula, na sua avaliação, da China para depois de 71 anos, desde 1949, estar com a tecnologia 5G mais avançada do mundo, como o senhor afirmou? E também na questão do coronavírus. Aqui no Brasil estão testando duas vacinas: uma inglesa e outra chinesa. E há 23 anos a China recebeu de volta Hong Kong, como se explica o sucesso chinês?

Li Yang – A resposta para isso seria enorme e vou tentar dar uma reposta satisfatória em um curto tempo. De fato, desde a fundação da nova China em 1949, nós tivemos uma serie de sucessos. E quais as razões para isso? Esta é uma colocação minha agora. São três: o primeiro aspecto é uma liderança forte do Partido Comunista Chinês. O PCC foi fundado em 1921, este ano, completamos 99 anos. Já são quase um século desde o nascimento do Partido Comunista e vejo, neste um século, a meta e o objetivo máximo não se alteraram neste período. E este objetivo maior do Partido é resumido em uma frase que foi usada lá atrás e continua a ser usada hoje: servir o povo. Nesses anos, o Partido Comunista já passou por diversas etapas históricas. São dificuldades diferentes, em diferentes etapas, mas este objetivo maior não foi ofuscado, nem redirecionado nestes períodos. Eu acho que esta é uma característica maior do PCC que difere de outros partidos no mundo, que ao longo da história vão modificando-se e alterando-se. O PCC continua com o mesmo objetivo da época da fundação.

Um exemplo disso é que perante esta grave crise sanitária mundial, continuamos com o mesmo objetivo: servir o povo e salvar vidas. A dificuldade que a China teve que enfrentar para controlar o vírus é inimaginável.  A eclosão do vírus começou na China e se trata de um vírus novo, não sabíamos nada sobre ele e como reagir quando eclodiu na China. Imagina quando você tem uma nova doença que não tem vacina e medicamento, sem saber como ela se comporta. Mesmo com todas essas dificuldades, o Partido conseguiu liderar este combate com bases científicas. E o número de contágios e óbitos na China em decorrência da Covid-19 é extremamente baixo.

Durante este período, não deixamos ninguém para trás. O paciente mais idoso na China que se recuperou tinha 108 anos, e o mais novo 3 meses de idade. Mas, vemos com muita tristeza que alguns países ocidentais, nos Estados Unidos, na Europa, desistem dos idosos. Então, este é o tipo de liderança que o Partido Comunista tem realizado e isso explica a sua popularidade com o povo. A população chinesa é de 1,4 bilhão de pessoas, imagina o apoio de 1,4 bilhão de pessoas a um projeto de país, a força que isso tem. Eu acredito que não existe nenhum outro partido político no mundo que tenha este número tão grande de pessoas que o apoiam. Existe um estudo que foi realizado por instituições americanas, afirmando que o apoio ao governo chinês e ao PCC, na China, é de 93%.

Por favor, lembre, esta pesquisa não foi realizada por nenhuma instituição chinesa, mas por instituições americanas. A segunda grande razão é que desde a fundação da nova China, ela achou o seu caminho de desenvolvimento com as suas próprias características. Quando falamos que achamos nosso caminho, falamos do socialismo com as particularidades chinesas. Nós dizemos que este socialismo chinês é único, pois não há outro modelo socialista igual no mundo, nenhum país socialista, ou que implementou o modelo socialista que tenha um modelo como o chinês. Acreditamos que esse caminho que escolhemos é apropriado para nossas características, nossa cultura e nossa formação, e foi isso que nos possibilitou o desenvolvimento a longo prazo e estável.

Terceiro ponto que apresento é que nossa identidade cultural é muito forte. É uma identidade cultural que pode ser verificada na união dos chineses, que são um povo muito trabalhador, onde cada um trabalha pelo outro, pelo próximo. E em momentos de crise, como o da presente pandemia, estas características afloram novamente, ficando muito visíveis. Então, mesmo que tivéssemos uma diretriz governamental de combate forte, se não houvesse um sentimento coletivo, não teria como dar certo. O governo fala de cima, mas as pessoas não colaboram. Um exemplo são os EUA que está com 4 milhões de casos confirmados e a discussão ainda é usar máscara ou não. A discussão sobre usar máscara ou não, tem uma resposta mais complexa do que respostas de alta tecnologia, de alta complexidade.

Mas, na China, a reação da sociedade foi muito diferente. Desde que o governo anunciou que havia uma pandemia, 1,4 bilhão de chineses começaram a usar máscaras, sem este tipo de questionamento. Muitas pessoas perguntam como a China conseguiu este resultado tão bom. A China não tem nada de especial ou de melhor que outros países. Estamos sem vacina e sem medicamentos. Houve sim uma colaboração muito ativa da população de entender e proteger o outro. O que foi dito à população foi apenas três regras: usar máscara, lavar as mãos e manter distância. Nós fizemos isso de forma disciplinada. Indo para China nesse momento, você não vê as pessoas desrespeitando estas regras. A única diferença que poderíamos apontar que a China tem é a sua medicina tradicional. Esse é o espírito do povo chinês e que permitiu um sucesso no combate ao coronavírus e também é o espírito desse povo que permitiu o sucesso na caminhada pelo desenvolvimento do país.

CNN Brasil – Por que a China promulgou a lei de segurança nacional que gerou descontentamento e protestos dentro de Hong Kong? Por que a China achou necessária essa lei? Como a China vê o papel do Reino Unido diante desse cenário?

Li Yang – Eu gostaria de esclarecer que na pergunta da CNN há um erro. A promulgação da Lei de Segurança Nacional não gerou descontentamento. Posso dizer que ganhou apoio de uma parcela significativa da população de Hong Kong. E dá para entender por que houve apoio. Hong Kong é um centro econômico e financeiro da Ásia e já vem com protestos e descontentamento há algum tempo. Vários setores da sociedade de Hong Kong ansiavam por esta lei, para apaziguar esta onda de protestos e descontentamento.

Hong Kong, sendo um grande centro financeiro, tem diversos investidores internacionais. Imagina se você é um investidor desses e você vê que meses a fio, a sociedade de Hong Kong está em protestos e não tem estabilidade, qual seria o desejo? O fim desse tumulto foi pedido por uma parcela muito significativa da população local. E se você tivesse familiares morando em Hong Kong, eles também talvez teriam interesse e apoiariam a promulgação desta lei. Quais os setores que estão descontentes com a lei chinesa? A parcela descontente com essa Lei de Segurança Nacional é um pequeno grupo de manifestantes que é contra a China, e este grupo conta com apoio internacional que vem dos EUA e da Inglaterra que têm interesse no separatismo de Hong Kong. A promulgação da Lei de Segurança visa a estabilidade social. E por que a promulgamos? Dois aspectos. A primeira razão é a estabilidade como já foi dito, para a garantia da prosperidade desta zona autônoma; todos sabem que este descontentamento já perdura há um ano. Se continuar assim esse tumulto, perturbação, as consequências serão dramáticas. E isso não fugiu aos olhos da sociedade de Hong Kong, do cidadão, do investidor estrangeiro e dos estudantes que estão lá.

O cidadão de Hong Kong já estava preocupado em saber como continuaria sua vida, a prosperidade da zona poderia deixar de existir? E o segundo aspecto que saliento é a segurança nacional. Eu explico para vocês o porquê dos EUA e da Inglaterra apoiar este tipo de movimento em Hong Kong. O objetivo deles é muito claro: querem que Hong Kong se separe da China e usam como atrativo alguns pontos da cultura ocidental, em um embate contra a China.

Eles falam que querem a ‘independência judiciária’ de Hong Kong, o que é mentira. Podemos já afirmar que o caos em Hong Kong, provocado por este movimento com apoio dos EUA e da Inglaterra, já começou a provocar insegurança nacional para a China. Nenhum país do mundo permite que esse tipo de situação se prolongue por muito tempo. O governo central chinês espera que a administração autônoma de Hong Kong possa ter suas próprias políticas para esta situação. Posso dizer também que o governo central da China teve muita paciência. Foram já 23 anos do retorno de Hong Kong e o governo administrativo da zona especial ainda não conseguiu levantar uma política, ou um conjunto de leis para o seu projeto.

E por que que, em 23 anos, Hong Kong não conseguiu levantar o seu projeto de zona especial? Porque sempre existiu um grupo associado com alguns países do ocidente que provoca uma briga, impedindo a construção de tal projeto. Hong Kong é uma parte da China, Hong Kong é China e projetos de separatismo, de retirar Hong Kong da China é algo que o governo chinês não pode aceitar. Todo país tem uma lei de segurança nacional e a China não é exceção. O governo central da China não vai esperar outros 23 anos para que um projeto para a zona especial de Hong Kong seja criado. Em relação às ameaças de retaliação contra a China, isso não nos preocupa. Hong Kong ficará como território da China. E faremos frente a estas forças externas que não têm nem coragem de mostrar a cara para admitir o que estão fazendo. Eles é que deveriam estar preocupados com o tipo de ameaças que estão nos fazendo.

Li Yang – Agradecemos a presença de todos.




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